domingo, 14 de dezembro de 2008

São João da Cruz


Oh glorioso pai, como e o que falar de vós? Não me sinto nada digno de rabiscar letra alguma para tentar manifestar o quanto vossa experiência de Deus me cativa. Já no início, desde que vos conheci no Monte, na Barca de Deus, no Carmelo, encontrava-me por entre densas nuvens que nos mistérios carmelitanos chamamos "Noite Escura". Esta noite, povoada de dizeres incompreensíveis guarda os segredos mais íntimos da alma, e só a alma enamorada de seu Amado é capaz de compreendê-la na medida que se apaixona e se entrega sem reservas ao seu Amado, o seu Criador. Bendita vida a vossa meu bom Pai. Morrias de amor diariamente e vosso poetismo não se baseava em um sentimentalismo barato ou sem sentido, vossa alma era na verdade "Esposa amante" desse Deus-amor. E quanta graça abriu-nos essas vossas máximas de Deus. Como nos encheu a fé e nos fez compreender o amor místico, o amor amante, todas aquelas vossas palavras escritas mais com o coração pulsante do que com a pena ágil enlameada na tinta fresca. Subiste os degraus da "Escada do Amor Místico". Subiste cada degrau e a cada degrau vossa alma se inflamava mais ainda no amor de Deus e dos homens e vos aperfeiçoava o Esposo, pois o convidava, como a noiva, a subir as escadas do altar do céu. Me encanta vossa vida meu Pai, mas mais que isso interpela-me a mudar, a querer afundar-me nesse oceano profundo do amor místico. "Nada querer e tudo ter..." "um perder para ganhar..." O desprezo das coisas criadas para que elas não possam competir com o Criador, para se chegar ao despojamento interior, a descalces. "Para possuir Deus plenamente é preciso nada ter; porque se o coração pertence a Ele, não pode voltar-se para outro." É meu Padre, nesse mundo tão profano é muito difícil ver esperança no fim do túnel. Imitar vossas virtudes seria um caminho certo, mas como caminhar assim já que o silêncio não se "ouve" por ai? Como desejar o Amado verdadeiro, se o século nos deu tantas formas de "amor", a qualquer um chamamos amor? Como desejar a santa união de amor, se só sabemos desejar a nós mesmos e as riquezas? Não, é na contemplação, é na mística, é no silêncio, é na oração e na caridade ao próximo que está o verdadeiro amor, é lá na gruta de Belém que está o tesouro, é lo no silêncio do claustro do meu coração que está o verdadeiro "Jardim fechado" do qual Deus mesmo é o jardineiro, é ele mesmo quem o adorna como quer e quando quer com o que lhe aprouver. Creio meu Padre, ter inúmeros pensamentos elevadíssimos para enaltecer-vos como o Doutor místico que és, mas não o farei, pois um de vossos desejos últimos foi que Deus não o permitisse sair deste mundo sendo superior de nenhuma comunidade religiosa, e deste modo não quero atentar contra o vosso desejo de ser escondido, de não ter nada para si a não ser a Jesus vosso Deus. Assim espero encontrar-vos no céu e poder um dia, "no entardecer da vida ser julgado pelo Amor", e só pelo Amor. Assim espero e confio-vos minha pobre alma, sedenta de Deus, desejosa de ser Sua Esposa e de amá-lo como fim último. Confio-vos minha vocação e meu grande amor por Jesus e pela Igreja. Assim seja.


São João da Cruz, nosso Pai, Rogai a Deus por nós!


6 comentários:

Bruno Augusto disse...

"São João da Cruz foi um dos santos mais desconcertantes e ao mesmo tempo mais transparentes da mística moderna. Grande mestre da vida espiritual, transformou todas as cruzes em meios de santificação para si e para os irmãos. Três coisas pediu e acabou recebendo de Deus: primeiro, dar-lhe força para trabalhar e sofrer muito; segundo: não o fazer sair deste mundo como superior de uma comunidade; e terceiro: deixá-lo morrer desprezado e escarnecido pelos homens. Pregador, místico, escritor e poeta, João da Cruz faleceu após uma penosíssima enfermidade, em 1591 com 49 anos de idade e o Papa Pio XI o declarou Doutor da Igreja."

Este grande santo quer ser pro nosso tempo um sinal em meio a grande secularização das coisas divinas, do esquecimento de Deus e de Seu amor pela humanidade, aprendamos dele o modo simples de servir ao Deus que sóé amor.

Marcus Feichas disse...

Meu caro amigo Bruno,

Primeiramente, muito me honra e alegra, dedicar-me tão sublimes e bonitas palavras de seu texto, recheado de poesia e inspiração divina. Agradeço-lhe imensamente o presente ofertado e recolho-o em meu coração. Assim como São João da Cruz, que viveu para servir a Deus e o fez, sem alardes, sem querer para sí os títulos humanos, também guardarei para mim o presente que me dedica e não farei dele motivo algum que não seja simplesmente o reconhecimento e agradecimento por tamanha consideração dispensada a este seu amigo recente.
Quase indispensável dizer-lhe o quão bonitas e sensíveis são as palavras que deixa percorrer seus dedos para registrá-las na história. Em minha história, na história daqueles que por aqui passarem. Entretanto, não podemos nos abster de tecer elogios àqueles que utilizam seus talentos para a construção de um mundo novo. Um mundo em que o Amor, a Caridade, a Amizade e tantos outros valores doados por Deus, possam sobrepor aos mecanismos e meios destrutivos, alienadores e perversos que se agigantam com voracidade colossal na vida de hoje, nos traçados do cotidiano, nas linhas da existência contemporânea. Frente aos imensos progressos tecnológicos e culturais, lógico seria imaginar uma sociedade saudável, feliz, realizada. Inobstante, o que se cristaliza são almas doentes, escravas de valores, conceitos e caminhos tortuosos.

Sábio, São João da Cruz. Como poucos, soube reconhecer em sua curta passagem pela vida terrena, que os valores que tecem a alma de alegria e a protegem das intempéries da existência, não estão cravados no solo humano. Estão demarcados no alto. Lá, onde o humano somente alcança, se ligar-se ao divino. Sem amarras, sem paixões escravizantes. Assim mesmo, como bem descreve singelamente seu Blog, Descalço...

Abraços e agradecimentos sinceros pela homenagem.

Marcus

Bruno Augusto disse...

Caríssimo, não foi tão grandioso meu post. Confesso que me senti sem palavras para falar de nosso Pai místico. Mas a solenidade dele no tempo do Advento já nos remete a um olhar profundo sobre o que estamos fazendo da nossa vida. Vida esta que tem sua origem em Deus e só se tem verdadeiramente valor vivê-la se for junto dEle e para Ele. Se Nele ela tem sua origem é Ele também seu fim último. Logo, para se chegar ao fim é mister que o caminho tenha sido trilhado no mesmo objetivo. Só há um objetivo único para todos, Cristo Jesus.

Penso meu caro, que nós estamos trilhando esse caminho em busca do mesmo objetivo. Como sei disso? Ora, o caminho da santificação passa pelo conhecimento, pelo amadurecimento, do saber ser humano, saber compadecer da fraqueza alheia e ser auxílio como foi o Cirineu para o Cristo. O desejo de atingir a perfeição humana em Deus, o conhecimento de si, vem pelo intermédio de Deus o Criador. Sem Ele não se pode esperar saber coisa alguma já que todo saber vem Dele. Humanizar-se para não mundanizar-se, usar dos bens que passam em vista dos que não passam, buscando os que não passam. A pobreza do presépio quer nos levar ao entendimento da grandiosa manifestação de Deus, TEOFANIA, que se fez pobre, pequeno. Nasceu escondido, pois o povo que o esperava era idólatra da fama, da riqueza, do bem-estar, amantes do corpo e do prazer, beberrões e comilões e assim quando viera esse CRISTO pequeno e desprezado não O reconheceram, pois ainda havia sobre eles o véu da ignorância e do pecado. Por isso fecharam a Ele suas casas, suas hospedarias e ainda mais, fecharam os seus corações. Me dói escrever isso, pois me vejo ainda como eles, tão desprezível por não abrir meu coração, minha casa ao Divino Salvador. O esperado das nações vem, e vem com poder, não com poder para reinar com corrupção, mas com o poder do Amor infinito e misericordioso que é capaz de abraçar até os que o renegarem. Aprendamos do Salvador o amor e de São João da Cruz, assim como Ele aprendeu do Senhor, o desapego das coisas criadas que nos impede de reconhecer o Salvador.

Obrigado meu caro, pelo comentário.

A voz do menino... disse...

desde que vos conheci no Monte, na Barca de Deus, no Carmelo, encontrava-me por entre densas nuvens que nos mistérios carmelitanos chamamos "Noite Escura".

que lindo bruno!!!! amei isso!

Marcus Feichas disse...

Caro amigo Bruno,

Sua humildade, comum aos que possuem a noção exata dos valores nobres que engrandecem a alma, não lhe confere o "bom orgulho" de considerar seu post grandioso. Mas, entenda que foi grandioso por um motivo único: foi feito com amor, com prazer, com devoção. E nisto está o fato grandioso. As palavras, que também foram grandiosas e bonitas, apenas tentam expressar o que brota do coração. Nem sempre conseguem, pois as palavras surgem na mente para serem registradas, neste caso específico, no Blog. Porém, nossa mente se intranquiliza facilmente. Nos faz reagir a estímulos estressantes, especialmente quando não dispomos das condições mais apropriadas para exercer a oração dos sábios: o silêncio.
Costuma-se dizer que uma imagem, vale mais que mil palavras. Arriscaria a dizer, que um belo texto, vale mais que mil imagens. Porque o belo texto, nos faz imaginar, transcender, ultrapassar os limites da mente mundana, viajar por lugares nunca imaginados, penetrar na vida alheia e nela construir morada. Nos permite imaginar, intuir, refletir, pensar, repensar, acalmar.
Por isso meu caro amigo, o post foi grandioso. A busca pela abertura do coração, que também a mim representa uma luta diária e árdua, passa também pelo cuidado na escrita, pois dela, extraímos as imagens que iremos assinalar nas mentes dos mais próximos e dos mais distantes. Dos conhecidos e desconhecidos que, por intermédio de nossa palavra revelada pela arte da escrita, serão tocados de alguma forma que ainda não sabemos. Mas, se parte com pureza do coração, temos a convicção que produzirão frutos saudáveis, plantas ornamentais nos terrenos secos da existência humana.

"Não faça coisa alguma, nem diga palavra alguma que Cristo não faria ou não diria se encontrasse as mesmas circunstâncias."

São João da Cruz

Rosa Desfolhada disse...

Que blog interessante... que belo texto... "Jardim selado..."
Posso acompanhar seu blog?

Em J&M!

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