terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Rotina ou Vida?

Por Airton Luiz Mendonça
(Artigo do jornal o Estado de São Paulo)

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos.
Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio... Você começará a perder a noção do tempo.
Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea.
Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.
Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar:
Nosso cérebro é extremamente otimizado.
Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho.
Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia.
Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade.
Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para
compreender o que está acontecendo.
É quando você se sente mais vivo.
Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e 'apagando' as experiências duplicadas.
Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente.
Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo.
Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo.
Como acontece?
Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e
usa , no lugar de repetir realmente a experiência).
Em outras palavras, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa...
São apagados de sua noção de passagem do tempo...
Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida.
Conforme envelhecemos, as coisas começam a se repetir -as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações...
Enfim... As experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo.
Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.
Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a... ROTINA
Não me entenda mal.
A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.
Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo: M & M (Mude e Marque).
Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos.
Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar
quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas.
Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia).
Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais.
Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo.
Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente.
Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes.
Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes.
Seja diferente.
Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos..... Em outras palavras...... V-I-V-A. !!!
Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo.
E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais v-i-v-o... do que a maioria dos livros da
vida que existem por aí.
Cerque-se de amigos.
Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes.
Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é?
Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.

E S CR E VA em tAmaNhos diFeRenTes e em CorES di f E rEn tEs !

CRIE, RECORTE, PINTE, RASGUE, MOLHE, DOBRE, PICOTE, INVENTE, REINVETE.....
V I V A !!!!

4 comentários:

Marcus Feichas disse...

Meu caro amigo Bruno,

Que texto magnífico! Muito bem oportuna a sua inclusão aqui e quisera que muitos leitores que por aqui passasem, pudessem refazer rotas com as idéias transcritas. Não conheço os textos do autor deste, mas muito bem me impressionou pela ilustração científica regada a leveza e sabedoria.
Não pude resistir ao passar por aqui, a ler o texto. E mais, de deixar meus agradecimentos pela oportuna ação e idéia de aqui transcrevê-lo.

Quebremos a rotina!

Você, já está quebrando a sua Bruno...E nós?

Lilian Rodrigues disse...

Olá Priminho!!

Depois de séculos aqui estou para comentar esse texto que achei lindo e que me fez pensar em muitas coisas.

Acredito eu que a rotina facilita as coisas. A mesmice do cotidiano torna a vida mais previsível, estável e segura, ou seja, ela tem lá as suas vantagens. O problema é que o excesso de hábitos pode asfixiar, além de tirar a nossa capacidade de renovação e transformação. E isso traz conseqüências sérias. Uma rotina de muito trabalho, por exemplo, pode levar à ausência de novos relacionamentos e à falta de vontade de se arriscar.

Os dias “Parecem, mas não se repetem/ não podem repetir/ é impossível/ o ser é outro/ o dia é outro/ a hora é outra e ninguém é tão exceto”.

Rotinas podem ser reinventadas, podem ser quebradas, podem ser curtidas, as rotinas são sempre escolhidas. Reclamar delas é miopia: o alvo da crítica é, na verdade, nossa preguiça em fazer coisas de outro modo, de arriscarmos.
Chico Buarque imortalizou o verso: “Todo dia ela faz tudo sempre igual” ( aliás adoramos essa múscia... rsrsr) Sair dessa toada demanda certo grau de boa vontade e uma dose de percepção de seu momento de vida.

O que ganhamos ao arriscar e experimentar mudanças pequenas ou radicais? A gente inova a vida, percebe que nossos horizontes são bem mais amplos. No princípio, gera certo desconforto, mas vale a pena, pois os caminhos se abrem, e a gente descobre que tem condições de fazer diferente.

Com isso, a vida ganha mais irreverência, porque descobrimos um horizonte abrangente.

Precisamos perceber o cotidiano de outra forma: com paixão e brilho no olhar, porque traz mais graça à vida.
A mudança é de muita valia, pois é possível reinventar aquilo que se faz sempre. Isso significa que não é preciso necessariamente acabar de vez com o que você vinha fazendo antes, mas experimentar tudo de um jeito novo. Essa é uma bela maneira de quebrar os hábitos rotineiros.

Bom, acho q é isso... rsrsr!!

Grande bjo pra vc!

Bruno Augusto disse...

Caríssimos acompanhantes do DESCALÇO, fiquei muito contente com os comentários de vocês dois, que se tornaram raros por aqui. Creio que a rotina voltou ao normal e por esse motivo as visitações, mesmo sendo frequentes, são determinadas pelo tempo que dispomos e que por várias vezes são pouco.
Pois bem, caro Marcus, a inclusão desse texto se deu quando ouvi uma música do Frejat, AMOR PRA RECOMEÇAR, e ela traz citações deste deste texto e eu me encantei. Fiquei surpreso com a profundidade das colocações do autor, a dosagem das coisas para se chegar a perfeição, ao equilíbrio. Para muitos dos pensadores católicos que por aqui passam pode parecer que esse texto não tem nada de cristão. Mas se repararmos bem peceberemos a vastidão de ensinamento cristão que há nele.
Mudar, recompor, perdoar, fortalecer-se, voltar, medo, coragem, tolerância, alegria, desejos entre tantas outas coisas, mas sobretudo o amor que é o vínculo de toda perfeição.
Com certeza querida Lilian, o arriscar, o se lançar, o desejar coisas novas e ter vontade de buscá-las já é uma vitória, um ganho, uma conquista, pois o que vale é o que esse sentimento causa em nós. Há sentimentos que nos impulsionam, que nos fazem voar, que nos jogam até mesmo no meio da escuridão e é de lá que saem luzes, inovações, clics de novas perspectivas.
Estou quebrando rotinas sim, meu caro amigo Marcus e espero que você também esteja reinventando a vida no seu 2009 e você minha cara Lilian, esteja aprendendo a ver no futuro algo de espetacular, algo concreto e verdadeiro.
As rotinas são necessárias, mas é sempre bom quando podemos quebrá-las.

Abraço a todos

Rosa Desfolhada disse...

Olha aí o nosso futuro Psicólogo inteirando a gente da ciência! hehe
Demaaaais!
E tudo isso foi criado pelo bom Deus!!!

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